poetizando - inspire-se

O Jardim por em 26/03/2013

Cercado pelo prédio decadente de dois andares, paredes cor de rosa descascadas e janelas com vidraças quebradas ou simplesmente inexistentes há um jardim. Um jardim diferente, estranho, maltratado. Um jardim quase secreto.

Apesar das três portas que lá podem ser vistas, apenas uma ainda é utilizada. Uma espécie de varanda se projeta a partir desta única porta de entrada, e nela há uma mesa com o tampo quebrado — provavelmente maltratado pela constante exposição às chuvas ou ao sol — e algumas cadeiras laranja. Para se chegar ao jardim, é necessário descer uma pequena escada cujos corrimãos estão cobertos de lodo.

O jardim parece triste. Talvez por conta do mato que cresce em algumas falhas do chão de concreto, da terra seca e aparentemente morta, dos vasos de planta quebrados, da ferrugem que come as tampas dos esgotos, da vegetação mal cuidada. Apenas uma árvore é florida, e, mesmo assim, do chão mal se repara. Plantas altas e escuras escondem o jardim, o fecham em um mundo à parte, onde não existe o tempo nem nada mais.

Seus únicos visitantes parecem ser dois passarinhos que agora estão pousados num dos galhos da árvore mais alta. Fora eles, apenas umas poucas formigas conferem movimento ao jardim parado no tempo. A vida passa, rápida, mas o jardim continua sempre igual. O prédio se deteriora, as construções apresentam a marca do tempo, mas o jardim não. Ele parece ser sempre o mesmo.

Sentando-se em uma das cadeiras laranja, a sensação é estranha. Se olharmos bem em frente veremos uma outra escada e uma outra porta, trancada. De algum modo inexplicável é fácil perceber que atrás dela se esconde um mundo novo. Tristeza? Não mais! O jardim é, agora, um refúgio, o lugar certo para quem precisa pensar. É como se ao buscarmos soluções para os nossos problemas, o jardim nos fizesse ver que sempre há uma “porta”, mesmo que trancada, e que, se encontrarmos sua chave, também poderemos encontrar as respostas aos nossos problemas. Neste momento, o jardim é um porto-seguro. Por ser sempre igual, oferece consolo àqueles cujas vidas estão mudando rápido demais, torna claro que algumas coisas — talvez as mais importantes — são imunes ao tempo.

Alheio ao esquecimento a que é relegado, o jardim quase secreto segue seu destino. Em sua aparente solidão parece saber que, cedo ou tarde, todos acabarão se rendendo aos seus encantos.

Mas que encantos podem ser encontrados em um jardim triste e esquecido? O mesmo encanto experimentado por alguém que volta após muitos anos a um lugar e percebe que ele ainda é do jeito que lembrava; o mesmo encanto que uma melodia triste pode despertar por nos tocar a alma; o encanto que o colo da mãe proporciona ao filho de 7 ou 70 anos. O jardim encanta por resistir a tudo e por encerrar em seu mundo sentimentos, sonhos, histórias sob a forma de árvores antigas, ferrugem, paredes descascadas — sinais do tempo que guardam aquilo que o próprio tempo não conseguiu apagar.





Comentários


Google+